O Dilema dos Farmacêuticos: Entre a Lei, a Meta de Vendas e a Realidade da Dispensação
A rotina de quem trabalha atrás do balcão vai muito além da técnica. Seja em regiões periféricas ou em grandes redes no centro da cidade, o profissional enfrenta os chamados dilemas do farmacêutico: situações que não aparecem nas normas da Anvisa, na legislação RDC 344 ou nos manuais da faculdade.
Este artigo traz à tona a prática farmacêutica real, baseada em relatos de quem vive a tensão diária de trabalhar equilibrando ética, pressão social e exigências corporativas abusivas.
A distância entre a legislação e a prática farmacêutica real
No papel, a regra é clara. Para a dispensação de medicamentos controlados ou antimicrobianos, a receita precisa ser perfeita:
- Data da prescrição preenchida;
- Dados completos do paciente e endereço;
- Identificação legível do médico;
- Posologia e quantidade corretas.
Na teoria, o sistema é blindado. Na prática, a dispensação em área vulnerável encontra barreiras intransponíveis: pacientes analfabetos, idosos que não conseguem retornar ao posto de saúde lotado, ou receitas preenchidas às pressas.
Aqui nasce o primeiro conflito: seguir a norma fria e deixar o paciente sem tratamento, ou flexibilizar para garantir o cuidado?
Receita sem data: ética ou burocracia?
A receita sem data é um clássico. Tecnicamente, o farmacêutico deve recusar. Mas, e quando o paciente é um diabético que depende da insulina para não ter um colapso?
Em muitas realidades do farmacêutico favela, recusar o atendimento pode significar o agravamento clínico ou o abandono do tratamento. Para muitos, aceitar a receita e corrigir a data torna-se uma decisão de ética farmacêutica voltada para a redução de danos. Não é descuido; é uma escolha humana.
A "Empurrocoterapia" e o Desvio de Função
Se de um lado existe a pressão do território, do outro existe a toxicidade corporativa das grandes redes. A Lei 13.021 define a farmácia como estabelecimento de saúde, mas a gestão moderna a trata como um banco ou varejo de massa.
O farmacêutico hoje enfrenta uma descaracterização brutal:
- Vendedor de Cartão de Crédito: Talvez o ponto mais humilhante da profissão hoje. O farmacêutico é cobrado (sob ameaça de demissão) para bater metas de abertura de cartões da loja, desviando o foco da saúde para o financeiro.
- Acúmulo de funções: O profissional é Responsável Técnico, mas atua como caixa, repositor, faxineiro e vendedor, tudo ao mesmo tempo.
- Metas de "Ticket Médio": A pressão para empurrar vitaminas e itens de perfumaria em quem só foi buscar um analgésico.
O Cliente "Dono da Verdade" e a Desvalorização Profissional
Além da pressão da chefia, o farmacêutico lida com uma clientela muitas vezes hostil. A guerra de preços entre as redes acostumou mal o consumidor.
- Falta de respeito: Clientes que gritam, xingam e exigem descontos impossíveis, tratando o farmacêutico como um "entregador de caixinhas" e não como autoridade sanitária.
- O "Doutor Google": O paciente que questiona a orientação técnica porque "leu na internet", gerando conflitos desnecessários no balcão.
Nesse cenário, deixamos de ser profissionais de saúde para sermos vistos apenas como uma barreira burocrática entre o cliente e o medicamento.
A dispensação em área vulnerável envolve riscos reais
Voltando ao contexto da periferia, o relato de um colega ilustra outro extremo. Ele trabalhava em frente a uma comunidade em São Paulo. Certa noite, um homem influente no território pediu um antibiótico para a filha febril. Sem receita.
A lei exige a retenção da receita. Contudo, o "território" tem leis próprias. Negar o medicamento ali não era burocracia: era risco de vida.
Ele fez a dispensação. Garantiu sua segurança imediata, mas carregou o peso ético e o medo até pedir demissão. Esses são os extremos dos desafios da farmácia popular que a faculdade não ensina.
O corpo cobra a conta: O adoecimento do Farmacêutico
O resultado desse ambiente tóxico — somado ao assédio moral e à insegurança — é uma categoria doente. Não é apenas "cansaço"; são quadros clínicos reais que afastam profissionais do trabalho:
- Crises de enxaqueca crônica e tensão muscular;
- Ansiedade generalizada e Síndrome do Pânico antes de ir para o plantão;
- Depressão ligada à sensação de inutilidade e desvalorização;
- Burnout pelo estado de alerta constante (seja pelo medo do assalto ou pelo medo da demissão).
Conclusão: Ética também é entender o contexto
O farmacêutico não é apenas um conferente de caixinhas. É um profissional de saúde espremido entre a necessidade do paciente, a rigidez da lei e a ganância do mercado.
Precisamos falar sobre políticas públicas que protejam o profissional na periferia e sobre regulamentação trabalhista que impeça a transformação do farmacêutico em vendedor de luxo. Dar visibilidade a esses dilemas é o primeiro passo para resgatar a dignidade de quem mantém a saúde pública funcionando no balcão.